Dificuldade em obter crédito alcança 8 em cada 10 indústrias, diz CNI; juro é o vilão

Indústria siderúrgica. (Foto: Karan Bhatia/ Unsplash)

O custo elevado do dinheiro continua sendo o principal gargalo para o financiamento da indústria brasileira. Oito em cada 10 empresas industriais que enfrentaram dificuldades para obter crédito atribuem o problema diretamente aos juros elevados praticados no mercado, como mostra uma sondagem especial sobre as condições de acesso ao crédito em 2025, feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A pesquisa, realizada com apoio da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), revela que 80% dos empresários que tiveram obstáculos no acesso a crédito de curto ou médio prazo (operações com vencimento de até cinco anos) apontaram os juros como o maior entrave.

Na sequência, aparecem a exigência de garantias reais, como imóveis ou equipamentos, com 32%, e a falta de linhas de crédito adequadas às necessidades das empresas, com 17%.

O diagnóstico se repete no financiamento de longo prazo, aqueles acima de cinco anos. Nesse segmento, 71% dos industriais também citaram os juros elevados como principal dificuldade, seguidos novamente pela exigência de garantias (31%) e pela escassez de produtos financeiros compatíveis com os projetos empresariais (17%).

Para Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI, o cenário reflete diretamente o atual ambiente monetário do país. “A política monetária segue bastante restritiva. Com a taxa Selic em 15% ao ano e juros reais próximos de 10%, o crédito fica mais caro e desestimula investimentos em expansão da capacidade produtiva e em inovação”, avalia. Segundo ela, o efeito direto é a perda de competitividade da indústria em um momento em que o setor ainda busca retomar o crescimento.

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Selic elevada

O levantamento mostra que a combinação entre custo alto e condições rígidas não apenas dificulta a aprovação de crédito, como também desestimula a própria busca por financiamento. Mais da metade das empresas industriais (54%) não tentou contratar ou renovar crédito de longo prazo nos seis meses anteriores à pesquisa, realizada entre fevereiro e julho de 2025. No caso do crédito de curto ou médio prazo, o percentual de desistência chegou a 49%.

Apenas 26% das empresas conseguiram contratar ou renovar crédito de curto prazo, número que cai para 17% quando se trata de operações de longo prazo. Entre aquelas que efetivamente buscaram financiamento, os índices de frustração são elevados: quase um terço das empresas não obteve êxito no crédito de longo prazo, enquanto cerca de 20% falharam na tentativa de acessar crédito de curto ou médio prazo.

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Médias são as mais afetadas

O recorte por porte revela que as médias indústrias enfrentam as maiores dificuldades. Entre elas, 43% não conseguiram contratar ou renovar crédito de longo prazo, percentual superior ao observado entre pequenas (37%) e grandes empresas (27%). No crédito de curto ou médio prazo, a frustração também foi maior entre médias empresas (26%), seguidas pelas pequenas (21%) e pelas grandes (16%).

Além da dificuldade de acesso, a pesquisa aponta deterioração nas condições de financiamento. Entre as empresas que conseguiram renovar crédito de curto ou médio prazo, 35% relataram piora ou forte piora nas condições, incluindo taxas de juros, prazos, carência e exigência de garantias. No crédito de longo prazo, 33% das empresas fizeram a mesma avaliação.

Para quase metade dos entrevistados (47%), tanto no curto quanto no longo prazo, as condições permaneceram estáveis. Apenas uma minoria percebeu melhora: 14% no crédito de curto ou médio prazo e 12% no longo prazo.

Risco sacado

A pesquisa também revela que modalidades alternativas de financiamento seguem pouco difundidas. Apenas 13% das empresas industriais afirmaram ter contratado operações de risco sacado nos 12 meses anteriores à sondagem, enquanto 5% planejavam utilizar o instrumento no ano seguinte. A maioria (54%) declarou não ter contratado nem pretender contratar esse tipo de operação, e 29% disseram não conhecer ou preferiram não responder.

O risco sacado é uma forma de antecipação de recebíveis em que o fornecedor recebe à vista de uma instituição financeira, enquanto o comprador assume o compromisso de pagar o valor no vencimento original. Apesar do potencial para melhorar o fluxo de caixa, a modalidade ainda enfrenta baixa familiaridade no meio industrial.

Retrato do crédito

Com participação de 1.789 empresas industriais (entre pequenas, médias e grandes), a sondagem especial traça um retrato claro de um mercado de crédito caro, seletivo e pouco aderente às necessidades produtivas. Para a entidade, em um ambiente de juros elevados, o financiamento deixa de ser alavanca de crescimento e passa a funcionar como freio adicional para o investimento industrial no país.

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