HAIKOU, China — Com as tarifas aumentando em todo o mundo e o presidente Donald Trump prometendo pôr fim a décadas de globalização, a liderança chinesa vem promovendo uma ilha tropical como prova de que o país está seguindo na direção oposta.
A ilha de Hainan — uma província da China ao largo da costa sul do país, 50 vezes maior que Singapura — eliminou no mês passado as tarifas sobre a maioria das importações, reduziu impostos corporativos e individuais e se declarou o maior “porto de livre comércio” do mundo. A China afirmou que a ilha é um emblema de sua disposição para um comércio de mão dupla com o mundo.
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Xi Jinping, principal líder da China, chamou Hainan de “uma porta de entrada significativa que conduz à abertura da China na nova era”.
Da forma como é retratado por Pequim, o experimento de Hainan com o comércio sem tarifas remete ao espírito do início da era de reformas da China após a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976. O Partido Comunista abandonou o dogma socialista e passou a testar políticas audaciosas de livre mercado em determinadas áreas. As que funcionavam eram ampliadas para outras regiões.
A posição da China no comércio global é muito diferente agora. O país se transformou na potência manufatureira sem rival do mundo e na segunda maior economia. Xi tem defendido repetidamente a autossuficiência e trabalhado para garantir que a China nunca dependa de nada estrangeiro.
Ele demonstrou pouco interesse em alterar as altas tarifas e as políticas voltadas às exportações que ajudaram a dar à China um gigantesco superávit comercial de US$ 1 trilhão no ano passado.
“Não há nenhum sinal de que Hainan seja um precursor de uma abertura mais ampla e mais sistemática da economia nacional”, disse Richard McGregor, pesquisador sênior para o Leste Asiático no Lowy Institute, um centro de pesquisas australiano.
“Em um momento de superávits comerciais recordes”, acrescentou, o novo papel de Hainan como entreposto de livre comércio “tem um forte cheiro de troca de isca em termos políticos e de relações públicas”.
A maioria dos produtos estrangeiros agora pode entrar livremente em Hainan, cujos 10 milhões de habitantes representam menos de 1% da população total da China. Mas essas importações não podem deixar a ilha rumo a outras partes do país, a menos que condições rigorosas sejam atendidas.
A combinação de políticas tem como objetivo impedir que as importações sem tarifas destinadas a Hainan vazem para outras regiões do país, onde as tarifas elevadas continuam em vigor.
Os produtos importados para Hainan não podem ser enviados para outras partes da China sem o pagamento de tarifas, a menos que tenham sido processados de modo a aumentar seu valor em pelo menos 30%.
No Novo Porto de Haikou, um gigantesco terminal de passageiros e cargas na capital provincial, navios navegam dia e noite para a província vizinha de Guangdong. Mas o que antes era um polo de transporte doméstico tornou-se, na prática, uma fronteira internacional.
O serviço alfandegário chinês controla o fluxo de mercadorias que saem de Hainan para o restante da China, inspecionando caminhões em busca de quaisquer produtos sem tarifas que estejam sendo contrabandeados para o resto do país.
Embora altamente restrita, a possibilidade de acesso ao mercado chinês além de Hainan já está atraindo algumas empresas estrangeiras que, de outra forma, enfrentariam tarifas elevadas para vender a Guangdong ou a outras províncias chinesas.
Nesredin Hussein, um comerciante de café da Etiópia, alugou recentemente um armazém perto de Haikou para armazenar grãos importados para a ilha sem tarifas. Ele planeja comprar equipamentos de torrefação para poder processar o café trazido para Hainan livre de tarifas e, em seguida, enviá-lo a outras partes da China para venda sem pagar tarifa ou imposto.
“Para mim, isso é uma oportunidade muito boa”, disse ele, considerando o apetite voraz da China por café, observando que, de outra forma, teria de pagar até 30% em tarifas e outros impostos sobre quaisquer grãos importados diretamente para a China continental. “Aqui a alíquota é zero”, afirmou, após uma visita com a esposa e os três filhos à filial de Hainan da Harrow School, um colégio interno britânico de elite.
Menos convencido está Kamthon Wangudom, um empresário de origem chinesa da Tailândia que, convidado a Hainan em dezembro para visitar uma vila onde seus ancestrais viveram, foi levado primeiro a um centro de exposições que promovia as oportunidades de investimento da ilha.
Ele disse que sua empresa de energia renovável, em Bangcoc, já havia investido em Taiwan, Japão e Filipinas, mas evitava a China porque ela “é grande demais e complicada demais”. Ele é cético de que o novo regime tarifário vá mudar muita coisa.
Hainan gosta de se comparar ao Havaí por suas praias ladeadas por palmeiras e resorts; como o Havaí, também é pontilhada por instalações militares. Entre elas está uma gigantesca base naval perto da cidade turística de Sanya, no sul, que cresceu rapidamente à medida que a China afirmou suas reivindicações sobre o Mar do Sul da China.
Xi visitou Hainan em novembro para promover as políticas livres de impostos. Mas seu principal objetivo foi inspecionar a base naval e participar da incorporação de um novo porta-aviões. Xi deixou claro que a importância estratégica de Hainan significa que os interesses de segurança devem prevalecer sobre as ambições econômicas.
Hainan tem um histórico de grandes planos que frequentemente decepcionam, começando por sua designação, em 1988, como a última e maior Zona Econômica Especial da China, em um momento de auge da cooperação com empresas estrangeiras que recuou rapidamente desde que Xi chegou ao poder, em 2012.
Incapaz de igualar o crescimento econômico extraordinário de zonas especiais rivais como Shenzhen, ao lado de Hong Kong, Hainan foi por anos vista em grande parte como uma concorrente ensolarada, porém secundária.
Desenvolveu sua indústria do turismo, incluindo o turismo médico, e construiu novas rodovias e linhas ferroviárias de alta velocidade. Nos anos 1990, foi palco de um colapso imobiliário, o primeiro na China sob o comunismo.
Xi anunciou pela primeira vez os planos de transformar Hainan em uma meca do livre comércio em 2018. O projeto começou com a abertura de enormes shoppings livres de impostos em Haikou e Sanya.
Isso atraiu turistas chineses em busca de marcas estrangeiras de luxo com desconto, mas não conseguiu reverter a sorte econômica de uma ilha ainda marcada pelo impacto do colapso imobiliário.
O desenvolvimento atual do porto livre de Hainan “enfrenta duras provas de realidade”, segundo um estudo do Asia Competitiveness Institute, da Universidade Nacional de Singapura.
Hainan é muito menos bem-sucedida do que outras Zonas Econômicas Especiais chinesas e atrai relativamente pouco investimento estrangeiro direto, afirmou o relatório.
Para outros, porém, a importância de Hainan está em seu papel como campo de testes para políticas inovadoras que não abalam o status quo.
O experimento do porto de livre comércio permitirá que a China teste novas abordagens em áreas como finanças, educação e impostos, disse Lauren Johnston, fundadora da New South Economics, uma consultoria em Melbourne, na Austrália, “ao mesmo tempo em que protege o status quo no continente”.
c.2026 The New York Times Company
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