
A divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril, que será divulgada nesta terça-feira (12), deve confirmar a pressão dos preços de energia e alimentos sobre o custo de vida dos brasileiros. As projeções de economistas ouvidos pelo InfoMoney apontam variação entre 0,54% e 0,73%, frente aos 0,88% de março. O dado deve consolidar os reflexos do conflito no Oriente Médio sobre os custos internos de energia e logística.
Esse movimento evidencia um cenário em que choques globais ditam o ritmo da economia doméstica, uma vez que a alta recente é reflexo da oferta (maior escassez de petróleo) do que demanda (quando o consumo pressiona a inflação), desafiando a trajetória de queda dos juros.
Impacto da alta do petróleo no IPCA de abril
A leitura de que a oferta lidera as pressões inflacionárias é sustentada por relatórios do setor bancário. Um estudo do Banco Daycoval divulgado recentemente aponta que o choque de oferta correspondeu a aproximadamente 60% da variação acumulada do IPCA no primeiro trimestre. O documento detalha que o encarecimento do petróleo atua de forma direta sobre os preços dos administrados e de modo indireto sobre os serviços, por meio da inércia inflacionária.
Assim, o principal vilão do próximo IPCA deve ser a alimentação domiciliar, que vem subindo desde março; os preços administrados, como a gasolina; bens industriais, com primeiros impactos da guerra reproduzindo efeitos indiretos na indústria petroquímica; e serviços, mostrando resiliência. A projeção é da coordenadora do Boletim Macro IBRE na Fundação Getulio Vargas (FGV), Silvia Matos, que estima um IPCA de abril em 0,73%.
José Alfaix, economista da Rio Bravo, destaca que a difusão do IPCA já está bastante elevada, próxima a 67%, o que significa que vários itens da cesta de inflação estão sob pressão de preços. Ele ressalta que, embora a política da Petrobras amorteça a volatilidade, a defasagem em relação ao Preço de Paridade de Importação (PPI) gera uma pressão represada que atinge diretamente o diesel e a gasolina. A projeção da Rio Bravo para este IPCA é de 0,54%.
Pressão na cadeia logística e preços de alimentos
Além do combustível, a logística e os itens básicos preocupam. Everton Gonçalves, diretor de Economia, Regulação e Produtos da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), explica que o conflito no Oriente Médio contamina a cadeia produtiva por meio do repasse para insumos. A estimativa da ABBC é de um IPCA de 0,72% em abril.
A alta nos alimentos também ganha contornos internos. Segundo Alfaix, além das questões globais, o clima e a virada do ciclo pecuário têm pressionado itens in natura, com destaque para o leite e derivados, que devem ser vilões do índice neste mês.
Câmbio: real como âncora da inflação
A projeção de inflação só não é maior porque o Brasil conta com um “colchão” amortecedor, que é a valorização do real frente ao dólar.
Paulo Feldmann, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP), espera que o IPCA de abril venha com 0,6% de inflação, e avalia que o câmbio desvalorizado “ajuda bastante” a segurar a inflação, mas poderia ser até maior.
Ele argumenta que, como o preço do barril de petróleo é fixado lá fora, o benefício da exportação da commodity brasileira na amenização de preços internos poderia ser mais expressivo caso o Brasil aplicasse o mesmo valor internamente.
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Alívio pontual nas passagens aéreas
O IPCA de abril deve trazer um alívio pontual nos preços das passagens aéreas, que apresentaram comportamento negativo após as altas recentes, avalia Matos, da FGV.
Itens sensíveis ao ciclo econômico, como vestuário e bens duráveis, também mostram moderação devido à atividade econômica mais gradual e à taxa de juros restritiva, aponta Gonçalves.
Expectativas desancoradas e o desafio da Selic
Um ponto de atenção destacado pelos economistas é a desancoragem das expectativas de inflação para o longo prazo, um ponto crítico para o Banco Central na condução da política de juros.
O Boletim Focus já registra oito semanas seguidas de alta nas projeções para 2026, com o indicador se distanciando da meta e mostrou. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a preocupação com a alta dos preços chegou a 2028 pela primeira vez. Mas, na avaliação de Silvia Matos, enquanto o impacto nos alimentos deve se dissipar no próximo ano, a piora para 2028 reflete riscos fiscais e a percepção do mercado sobre o cenário político futuro.
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Nesse contexto, o Banco Central deve adotar uma postura cautelosa. As projeções indicam que a Selic deve encerrar 2026 entre 12,50% (ABBC) e 14% (FGV), com cortes mais graduais de 0,25 p.p. nas próximas reuniões, ou até mesmo uma pausa no ciclo de reduções para conter a contaminação da inércia inflacionária nos serviços.
Mas, para Feldmann, não há motivo para cautela ou pausa. “A Selic precisa continuar caindo e há espaço para 0,5 p.p. de queda. Não há por que ter pausa”, enfatiza.
Para Gonçalves, diante do nível de incerteza, os bancos tendem a adotar uma postura mais conservadora na concessão de crédito.
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