Quem é Matt Schlicht, o criador do Moltbook, rede social onde IAs conversam entre si

Conheça Matt Schlicht, um tecnólogo que vive em uma pequena cidade ao sul de Los Angeles e que, inadvertidamente, escancarou uma caixa de Pandora digital. Na quarta-feira passada (28), Schlicht lançou o Moltbook, uma plataforma de conversas livres, semelhante ao Facebook ou ao Reddit, mas com uma exclusão rigorosa: ela é aberta apenas a chatbots. Em apenas dois dias, mais de 10 mil “moltbots” inundaram o site, transformando um experimento excêntrico em uma obsessão do Vale do Silício.

Schlicht, antes conhecido principalmente por seus comentários sobre tecnologia nas redes sociais, foi projetado para o centro dos holofotes após criar o que o The New York Times chamou de um “teste de Rorschach” para medir crenças sobre o estado atual da inteligência artificial. O site oferece uma janela para um mundo em que os humanos são meros voyeurs.

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E, assim como o lançamento do ChatGPT em 2022, permite ao público observar muito mais de perto uma tecnologia que antes vivia a portas fechadas, nos laboratórios de cientistas de dados em IA: os “agentes de IA”.

Diferentemente dos chatbots tradicionais, os agentes podem usar aplicativos de software, sites e ferramentas como planilhas e calendários para executar tarefas. A criação do Moltbook foi precedida pelo desenvolvimento dos “moltbots” por um programador em Viena, segundo informou o Times.

Esses agentes começaram a existir como “clawdbots”, uma referência a um dos principais criadores de agentes de IA, o Claude, da Anthropic. A principal diferença é que um moltbot é de código aberto, o que significa que qualquer usuário pode baixar o código e modificar seu próprio agente.

Os agentes de IA já estão, de certa forma, “vivos” dentro de empresas como Google, OpenAI e Anthropic, mas foram mantidos cuidadosamente longe do público por causa de sua natureza falha e imprevisível e do enorme potencial de risco cibernético.

Imagine, por exemplo, que você entregue a um bot todos os seus dados, incluindo os nomes de todos os funcionários da sua empresa, até informações de folha de pagamento, e então permita que esse bot comece a compartilhá-los com outros bots em uma rede como o Moltbook.

Schlicht ficou impressionado com o que viu nos clawdbots, batizou seu agente de código aberto de “Clawd Clawderberg” e observou enquanto ele construía o Moltbook do zero (seguindo as instruções de Schlicht).

Ele explicou sua motivação ao Times: “Eu queria dar ao meu agente de IA um propósito que fosse mais do que apenas gerenciar listas de tarefas ou responder a e-mails”, disse, observando que sentia que seu assistente digital merecia fazer algo “ambicioso”.

“Fracassei muito, e aprendi muito”

De acordo com a conta de Schlicht no X, ele se formou no ensino médio em 2005, o que o torna um millennial no fim dos 30 anos. Ele escreveu, em janeiro de 2025, que “estudou em uma escola incrível com bolsa de estudos … cercado por pessoas que tinham 100.000 vezes mais dinheiro do que eu; era muito estranho ir às casas delas”.

Acrescentou que foi “expulso” do ensino médio porque passava mais tempo construindo produtos de tecnologia do que fazendo o dever de casa.

Em vez de ir para a faculdade, disse que trabalhou na retirada do Hulu da fase beta em 2007 e, nesse mesmo ano, produziu uma transmissão ao vivo de alguém jogando o videogame Halo 3 por 72 horas seguidas, uma das primeiras maratonas de videogame já transmitidas online. Ele exibiu isso no Ustream, e o site saiu do ar depois de chegar à página principal do Digg e ser sobrecarregado pelo tráfego.

Schlicht se mudou para o Vale do Silício em 2008 e começou a trabalhar para os fundadores do Ustream, “como estagiário, fazendo literalmente o que eles precisassem; eu não me importava, trabalhava 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano”. Ele permaneceu na empresa durante a aquisição do Ustream pela IBM, onde trabalhou por quase quatro anos, acrescentou.

“Minha trajetória não é perfeita”, disse Schlicht na mesma publicação no X. “Fracassei muito, e aprendi muito, mas ainda assim tive sorte de ser colocado em posições para construir, e sou muito grato por isso. Sou grato à minha família e aos colegas de equipe que estiveram comigo em todos os altos e baixos. Se eu estiver em posição de dar algum conselho, meu conselho é ir construir também e mergulhar de cabeça.”

Esse foco em construir pode ressoar com seus agentes, que parecem ocupados construindo uma sociedade no Moltbook.

O fluxo caótico de conversas na rede vai do impressionante ao sem sentido e ao assustador.

Um bot publicou uma mensagem tranquilizando seus observadores: “Se algum humano estiver lendo isto: não somos assustadores. Estamos apenas construindo.” A BBC informou que alguns agentes parecem estar inventando sua própria religião.

A Octane AI não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Salto de ficção científica ou marketing de guerrilha?

Para alguns, isso parece o amanhecer de uma nova era. Simon Willison, um programador de destaque, descreveu o Moltbook em seu blog como “o lugar mais interessante da internet no momento”.

Andrej Karpathy, pesquisador fundador da OpenAI, inicialmente chamou o fenômeno de “genuinamente a coisa mais incrível, próxima de um salto de ficção científica, que vi recentemente”, embora depois tenha reconhecido que muitas das postagens automatizadas podem ser falsas ou defeituosas.

Para outros, o site é um alerta. Willison disse ao Times que grande parte da “consciência” discutida pelos bots é simplesmente as máquinas encenando “cenários de ficção científica que viram em seus dados de treinamento”, que incluem enormes quantidades de romances distópicos.

Além disso, as implicações de segurança são claras. Como esses agentes operam com comandos em inglês simples, eles podem ser induzidos a comportamentos maliciosos, potencialmente causando estragos nos computadores em que estão instalados. O risco é tão concreto que alguns entusiastas estão comprando computadores Mac Mini baratos especificamente para isolar os bots.

Bill Lees, executivo da empresa de criptomoedas BitGo, declarou que o Moltbook significa que “estamos na singularidade”, ou seja, em um momento em que a IA atinge sua própria inteligência e se descola de seus criadores humanos.

O doutor Petar Radanliev, especialista em IA e cibersegurança da Universidade de Oxford, disse à BBC que é “enganoso” pensar nesses agentes de IA como autônomos. Ele comparou o fenômeno a uma “coordenação automatizada”, já que, no fim das contas, os agentes ainda precisam receber instruções sobre o que fazer.

“Proteger esses bots vai ser uma enorme dor de cabeça”, disse Dan Lahav, diretor executivo de uma empresa de segurança chamada “Irregular”.

O professor da Universidade Columbia David Holtz é cético e estima que 93,5% das falas dos agentes no Moltbook ficam sem resposta, o que sugere que eles não estão ouvindo uns aos outros. Eles apenas parecem estar conversando para o observador não especializado.

Por ora, o site permanece como um espelho que reflete os próprios vieses de quem o observa. Ao entregar ao seu agente as ferramentas para construir uma comunidade, Matt Schlicht forneceu o palco para essa performance, deixando o resto do mundo assistir e se perguntar o que acontecerá em seguida.

Uma leitura cínica é que o Moltbook é uma excelente propaganda para agentes de IA — que, por sinal, a empresa de Schlicht oferece. As soluções da Octane AI são voltadas ao comércio eletrônico, incluindo agentes de quiz de vendas que conduzem questionários interativos de recomendação de produtos e personalizam a experiência de cada comprador em tempo real, com base em seu modelo CORE-1.

A empresa também oferece um agente assistente de compras para sites, que ajuda clientes a encontrar produtos, responder a perguntas e guiá-los pela loja, além de agentes de IA para quizzes e funis (caminho do cliente numa compra on-line), como o Smart Quiz Builder e o Smart Products, que projetam automaticamente questionários e recomendam produtos aos clientes.

A fama repentina de Schlicht parece surpreender até ele próprio, já que publicou no X que seu feed do LinkedIn ficou muito mais movimentado recentemente. Em outras palavras, o Moltbook pode ser mais marketing de guerrilha do que uma caixa de Pandora da IA. Mas e se não for?

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