“Em cinco anos, cripto não será nosso negócio principal”, diz CEO da Bitget

O mercado financeiro tradicional e o universo das criptomoedas estão caminhando para um encontro trilionário. Grandes corretoras globais já preparam a infraestrutura para absorver montantes robustos do mercado de ações. Uma delas é a Bitget, comandada pela chinesa Gracy Chen. 

A sexta maior exchange do mundo (segundo o CoinMarketCap) aposta na “estratégia UEX (Universal Exchange)”, um plano desenhado para liderar a migração de ativos do mundo real (RWA, na sigla em inglês), como ações e commodities, para o ambiente on-chain (dentro de uma blockchain). A ideia é não oferecer apenas criptomoedas ou ativos do mercado financeiro tradicional, mas um mix dos dois mundos. 

“Até 2030, é realista imaginar que 40% da negociação global de ações possa ocorrer por meio de trilhos cripto”, projeta Gracy Chain. Em entrevista exclusiva ao InfoMoney, a executiva disse que, além do varejo tradicional de moedas digitais, a corretora enxerga um futuro onde as Bolsas de valores rodarão sobre a tecnologia blockchain. 

Segundo Chen, a tokenização deixará de ser uma inovação de nicho para se tornar a principal engrenagem financeira da próxima década, oferecendo agilidade, menor custo de transição e maior eficiência de capital através do uso de stablecoins. 

Ao tokenizar uma ação, as empresas registram o ativo em uma blockchain, permitindo que investidores o negociem no mesmo ambiente em que criptomoedas, via contratos inteligentes. A tokenização ainda permite fracionar um ativo em várias partes digitais. 

A tokenização em massa de ativos deve redefinir o sistema financeiro global, segundo a CEO. Em seus cálculos, essa transição das ações representaria um fluxo de US$ 32 a US$ 80 trilhões migrando definitivamente para a infraestrutura do mercado cripto. Para capturar essa liquidez antes das instituições tradicionais, a corretora construiu a UEX, deixando claro que o negócio puramente cripto está perdendo força com a chegada dos ETFs e dos grandes fundos de investimento.

“Criamos o termo Universal Exchange porque percebemos que o negócio de exchange de criptomoedas está encolhendo e os RWAs estão crescendo”, diz Chen.  

Nesta entrevista exclusiva, a CEO da Bitget detalha os bastidores dessa transição, analisa a maturidade do investidor brasileiro, relembra os “golpes de sorte” do marketing esportivo com Lionel Messi e abre o jogo sobre as expectativas de preço para o Bitcoin em meio à turbulência macroeconômica global. Confira:

InfoMoney: Você é CEO da Bitget há quase dois anos. Quais foram as mudanças e os desafios mais significativos que você enfrentou na empresa desde maio de 2024?

Gracy Chen: Nos últimos dois anos, o mercado não tem sido tão fácil para as exchanges. Me tornei CEO logo após a aprovação dos ETF à vista de Bitcoin pela SEC (CVM dos EUA). A partir disso, as criptomoedas não são mais ofertadas apenas pelas exchanges, mas também por corretoras tradicionais, como a Robinhood. 

Muitos familly offices e pessoas de alta renda preferem comprar via ETFs em vez de negociar com exchanges. Então, o negócio de exchange cripto está encolhendo se você olhar por esse lado. Além disso, o Bitcoin está na casa dos US$ 60 mil, praticamente no mesmo patamar de cinco anos atrás. Esse é o mercado que precisamos enfrentar enquanto sou CEO.

IM: E como a Bitget está reagindo a isso?

GC: Nos esforçamos ao máximo em branding, produto e construção de confiança – com fundo de proteção e atualização mensal da prova de reserva. Mas também criamos o termo Universal Exchange (UEX) porque percebemos que o negócio de exchange de criptomoedas está encolhendo e os RWAs estão crescendo. 

É por isso que começamos a oferecer mais classes de ativos e integramos outras, como Forex, commodities, ações tokenizadas e seus futuros. 

IM: Você acredita que as corretoras tradicionais de criptomoedas vão morrer?

GC: Não acho que as corretoras vão morrer, mas se for um negócio puramente cripto, elas só têm dois caminhos. O primeiro é adicionais mais compliance, finanças tradicionais e RWAs. Nós chamamos isso de “mais UEX”. 

O outro caminho é manter a operação local, sem planos de abrir capital em bolsas maiores, como a Nasdaq, o que, na minha opinião, funciona como um cassino. Aliás, esse tipo de negócio ainda faz sentido. Esse lado do negócio também está competindo com o mercado de previsões. 

IM: Em um artigo recente, você compartilhou uma visão ousada de que, até 2030, até 40% da negociação global de ações poderá ocorrer em infraestrutura cripto. Quais são os passos práticos para tornar isso realidade?

GC: Isso será construído em cima de algumas tendências. Número um: o maior uso de stablecoins. Quando as pessoas se acostumam a usar USDT ou USDC, elas se acostumam com o mundo digital. As stablecoins já são usadas em muitas transações transfronteiriças, especialmente na América Latina, Sudeste Asiático ou Turquia. Em alguns países elas são usadas como substitutas da moeda local. 

Hoje, o mercado de stablecoins é de US$ 300 bilhões, mas acho que há espaço para dobrar esse número anualmente pelos próximos anos. 

O segundo fator são as plataformas financeiras tradicionais se digitalizando. Nasdaq e NYSE (bolsa de Nova York) já anunciaram que tokenizarão suas ações. Quando esses emissores tradicionais entram no mercado, os investidores se acostumam com os RWAs muito facilmente. 

Atualmente, apenas cerca de 0,5% do mercado é tokenizado, mas quando Nasdaq e NYSE entrarem nisso, acho que a previsão de 40% é até baixa. Conversei com alguns executivos envolvidos nesse movimento e eles estão bastante otimistas, acham que isto é possível ainda em 2026 e que só depende de uma regulação da SEC.

IM: E como vocês vão capturar uma fatia relevante desse mercado?

Gracy Chen: Hoje, se você olhar para ações americanas tokenizadas, a Ondo é o maior player. Eles têm mais da metade da participação de mercado e nós somos seu maior distribuidor, contribuindo com 90% do volume deles. 

Com o passar do tempo, daqui a quatro ou cinco anos, cripto não será o nosso negócio principal. Embora ainda seja hoje, queremos estar na primeira fila quando os usuários tradicionais se sentirem confortáveis usando stablecoins para negociar commodities, ações e até fundos de private equity.

InfoMoney: Você vê essa tendência chegando ao Brasil em breve?

GC: O Brasil é definitivamente um mercado prioritário para a Bitget na América Latina e nossa estratégia é muito focada no local. O Brasil deve estar logo atrás dos EUA nesse aspecto e terá, muito em breve, a oferta de ações tokenizadas.

IM: Como a Bitget classifica o nível de maturidade do investidor brasileiro comparado com a Ásia e Europa?

GC: A Ásia é muito diferente, mas eu diria que o Brasil é um pouco parecido com a Europa e o Leste Asiático. Essas regiões são muito ativas financeiramente, observam de perto o que os EUA estão fazendo e muitas pessoas já são investidoras de ações americanas. Sinto que o Brasil é semelhante à Europa nesse aspecto, enquanto talvez outros países da América Latina não sejam tão empoderados financeiramente. Nós produzimos muito do nosso conteúdo localmente para nos adaptarmos aos usuários brasileiros.

IM: Mudando de assunto, vocês tiveram uma parceria muito forte com Lionel Messi e, mais recentemente, com a LaLiga. Como o marketing esportivo se traduz em adoção real de usuários?

GC: Nós fechamos a parceria com ele antes da Copa do Mundo de 2022, lá por outubro, e a Copa foi em dezembro. O timing foi perfeito. Quando assinamos com ele, a Argentina não era a favorita para ser campeã. Fomos surpreendidos também, foi sorte, Deus me ajudou (risos). 

A Bitget era menor naquela época, e a parceria com ele, junto com o título, elevou muito a nossa marca. A única obrigação dele conosco era um comercial por ano, mas nós aproveitamos muito isso. Até celebramos o aniversário dele só para que todos soubessem que somos patrocinadores. Foi uma ótima campanha para aumentar o conhecimento da marca.

IM: Por fim, uma pergunta sobre o recente crash do Bitcoin. Como o investidor de varejo se comportou na Bitget? Notou uma onda de vendas em pânico ou os usuários aproveitaram para comprar na baixa?

GC: O que vemos na Bitget é bastante consistente com o mercado geral. As pessoas têm opiniões muito divididas. Alguns acham que o Bitcoin provou que não tem valor e vendem tudo. Outros acham que, com mais liquidez vinda dos EUA, o Bitcoin voltará ao topo histórico. E há aqueles no meio-termo, que acham que é um bom momento para fazer preço médio, acreditando que pode cair mais 40% antes de subir. Eu estou mais no meio-termo. 

O Bitcoin é altamente relacionado à macroeconomia, tensões geopolíticas, taxa de desemprego dos EUA etc. No curto prazo, é difícil prever. Mas, no longo prazo, eu acredito no Bitcoin. Ele deve ser avaliado como um ativo muito diferente do setor financeiro tradicional e como um reflexo puro da liquidez global. A oferta monetária global tem subido, e isso refletiu nas commodities, mas ainda não necessariamente no Bitcoin. Acho que o Bitcoin deve recuperar esse atraso.

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