A Copa do Mundo está chegando e, com ela, a expectativa de bares lotados para assistir aos jogos. Já pensou em aproveitar essa onda para investir mesmo sem entender nada de bares ou nem gostar de beber? Ou ganhar com a boa fase do cinema nacional, com indicações ao Oscar e prêmios internacionais? Ou ainda investir em música, shows ou arte?
Investimentos alternativos como esses tornaram-se mais acessíveis nos últimos anos com a regulamentação das plataformas de financiamento coletivo, ou crowdfunding, pela Comissão de Valores Mobiliários na Resolução 88/2022. A antiga “vaquinha virtual” hoje já oferece desde operações de compra de créditos feitos para pequenas empresas até financiamento de fintechs, eventos, artistas, filmes e projetos imobiliários por meio de contratos de investimento coletivo ou de criptoativos tokenizados, organizados por empresas com fiscalização pela CVM.
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Os investimentos alternativos podem ser uma opção em momentos de maior instabilidade ou falta de visibilidade nos mercados tradicionais, como deve ocorrer neste ano diante da eleição presidencial no Brasil, afirma Leonardo Tang, responsável pelo Marketing da Hurst Investimentos.
A plataforma oferece oportunidades de investir em parceiros de negócios por meio de crowdfunding ou fundos nos mais diversos campos de atividade. “Temos um lado de crowdfunding e temos as originadoras de créditos, parceiras experts em cada área, uma em música, outra em filmes, outra em empréstimo consignado e assim por diante”, explica. Segundo Tang, a grande dificuldade dos investimentos alternativos é que são áreas muito diversas e exigem conhecimentos específicos. “Por isso precisamos ter um time muito bom para avaliar e originar esses créditos”, explica.
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Ganhos no boteco
Um exemplo é o crédito para bares e restaurantes. Tang lembra que nove dos dez feriados federais deste ano caem durante a semana, e há ainda a Copa do Mundo e as eleições na agenda, o que deve garantir um mega ano para o setor em 2026.
De olho nesses ganhos, a Hurst montou uma estrutura para financiar a Pantore Pay, uma fintech que financia a compra de bebidas para bares e restaurantes de todo o Brasil. A empresa paga as faturas das compras diretamente ao fornecedor, uma forma de reduzir o risco de desvios. O dono do bar ou restaurante recebe as bebidas e um boleto para pagar em sete dias, com juros. O sistema, que conta ainda com garantia dos pagamentos feitos pelas maquininhas de cartões, permite 11 mil pequenos empréstimos por mês em todo o Brasil e que podem ser securitizados e garantir rendimentos de 23% ao ano em até 12 meses, estima Tang.
Ganhos musicais
Como o investidor não quer só bebida, outro investimento alternativo da Hurst é na área artística, com antecipação de royalties musicais de artistas e compositores. A maioria das receitas vêm de plataformas de streaming, como TikTok, Spotify e Youtube, que pagam ao artista cada vez que a música é ouvida. “O grande trabalho da originadora dos créditos é garantir que o artista consiga receber pela execução”, diz Tang.
Ele dá o exemplo do cantor e compositor Toquinho, que licencia os valores a receber para uma empresa, que por sua vez antecipa as quantias com desconto junto à Hurst. “O fluxo das músicas é muito previsível, conseguimos analisar até 4 anos de histórico e projetar quanto vai ser o fluxo de caixa”, diz Tang. Em seu portfólio, a Hurst tem, além de Toquinho, os recebíveis de cantores e compositores como Paulo Ricardo, Amado Batista, Maiara e Maraisa e Marília Mendonça.
Do drama ao terror
A plataforma aposta também no sucesso de filmes e nos ganhos com bilheterias e com a distribuição e vendas para streamings. Hoje, a Hurst tem investimentos em cinco filmes, dois deles concorrendo ao Oscar e ao Globo de Ouro: o drama norueguês “Valor Sentimental” e o espanhol “Sirât”, produzido por Pedro Almodóvar e que ganhou o prêmio do júri do Festival de Cannes de 2025.
“Financiamos a distribuidora que comprou os direitos desses filmes e agora vai vendê-los no Brasil para serviços de streaming e a expectativa é de valorização diante da grande divulgação com as indicações a prêmios”, diz Tang.
Na lista, ainda há ainda dois filmes brasileiros, um de terror, o “Apanhador de Almas”, com a atriz Klara Castanho, que conta a história de quatro aprendizes de bruxa, e o filme “Cordélicos”, baseado na série de animação nacional de mesmo nome sobre cinco cangaceiros mandados para o futuro. A animação já foi comprada pela Amazon Prime, que deve se interessar também pelo filme, acredita Tang. Nesse investimento, a expectativa é de retorno de 31%.
Parques de diversão, crédito e ativos judiciais
Há também investimentos no setor chamado de Entretenimento Familiar, em que a Hurst tem parceria com uma empresa que está construindo quatro parques de diversão em shoppings em Campinas, a serem concluídos no começo do ano. Outros investimentos são mais ligados ao mercado de crédito tradicional, com um fundo de recebíveis de empréstimos para funcionários públicos federais e outro que financia pequenas empresas que prestam serviços para a Petrobras. Há ainda fundos voltados para ativos judiciais, como precatórios ou Requisições de Pequeno Valor, de até 80 salários-mínimos.
Sem garantia e prazo variável
As rentabilidades dos investimentos da Hurst variam entre o mínimo de 18% ao ano a 34% ao ano, estima Tang. Mas ele alerta que, diferentemente dos ativos tradicionais, como CDBs ou títulos do governo, não há garantias e a liquidez desses alternativos é muito menor. “O dinheiro vai ficar investido por um ano, dois, até três anos, mas é uma das trocas para se pensar em uma rentabilidade maior”, diz. Alguns investimentos até têm maturação mais rápida, como filmes, de cerca de quatro meses.
Tang admite que os investimentos alternativos têm riscos diversos, por isso é preciso analisar cada operação individualmente. “Mesmo no caso do fornecedor da Petrobras, há o risco de a prestadora de serviço não atender as exigências, por isso olhamos o histórico de três, quatro anos antes de emprestar”, diz. Já no entretenimento, sempre há risco de filme não render ou o valor de venda dos direitos de exibição não ser o esperado. Por isso a Hurst toma cuidado em ter parceiros com conhecimento e experiência.
O mesmo acontece nos investimentos em artes. A plataforma tem parcerias com galeristas e especialistas e atua também na compra de quadros de artistas brasileiros para aguardar sua valorização ou no financiamento de exposições das obras no exterior. “Esses são os riscos, de se a obra vai se valorizar e quando poderá ser vendida”, diz.
Ativos digitalizados em bolsa
Outras empresas também atuam no mercado de investimentos alternativos, como a plataforma Zuvia, que além de distribuidora é securitizadora e tokenizadora, ou seja, digitaliza um ativo lastreado por um crédito, como um financiamento para uma empresa, uma antecipação de duplicatas ou de cartão de crédito ou até um projeto imobiliário. A empresa faz a captação via crowdfunding e transforma os contratos de investimento coletivo em tokens que são entregues aos investidores e podem ser negociados.
O crescimento dos investimentos em crowdfunding atraiu inclusive a B3, controladora da Bovespa, que criou um mercado especialmente para essas plataformas com a opção de tokenização dos ativos, para facilitar as negociações com maior segurança. No ano passado, a Zuvia fez a primeira oferta pública inicial de tokens na B3, de uma empresa de crédito para revendedoras de carros, a Fenynx. Em 2025, o mercado de crowdfunding movimentou até o terceiro trimestre R$ 3 bilhões, praticamente o triplo do mesmo período do ano anterior, afirma Felipe Lippel Lettiere, responsável pela área de crowdfunding da B3.
Pimentinha arriscada
Para o investidor, o crowdfunding e os investimentos diferenciados dão oportunidade de participar de oportunidades em pequenos negócios de setores que não estariam acessíveis nas condições normais de mercado, diz André Pereira de Melo, planejador financeiro CFP pela Associação Brasileira do Planejamento Financeiro (Planejar). “Não há interesse em bancos ou corretoras em estruturar uma captação de menos de R$ 20 milhões para uma empresa”, diz.
Mas, ao mesmo tempo, são investimentos muitas vezes de alto risco e sem liquidez e que precisam ser muito bem avaliados. “É uma pimentinha a mais para o investidor, mas como a própria CVM alerta, há o risco de perder tudo, por isso há várias limitações de valor”, diz.
Ele lembra que, além dos riscos do negócio, há outros, como a possível falta de informações e de transparência do emissor, problemas de custódia ou de liquidez. “Não é um investimento para qualquer um, pode ser que ele tenha de carregar esse investimento por anos”, alerta. No caso dos ativos tokenizados, ele cita o risco de hackers invadirem as custódias das empresas e roubarem os ativos. “Por isso é importante o investidor fazer ele mesmo a custódia, com o uso de blockchain, o que não é tão simples”, diz.
De Paul McCartney a Xuxa
Mas há também meios mais tradicionais para participar de setores que não fazem parte do arroz com feijão do mercado. Há cinco anos, a gestora Flowinvest atua no financiamento de shows de grandes bandas por meio de um fundo de direitos creditórios, um FIDC, em parceria com a 30e, hoje uma das dez maiores produtoras de eventos do mundo segundo a revista especializada Pollstar.
A parceria começou justamente no pior momento possível para o setor, em plena pandemia de Covid-19, lembra Luís Henrique Wolf, presidente da Flowinvest. O FIDC da 30e, sob gestão da Artesanal Investimentos, antecipa o valor dos ingressos para os artistas e produtores, tem patrimônio hoje de R$ 460 milhões e atua em um mercado que movimentou em 2025 um total de R$ 141 bilhões em eventos, R$ 9 bilhões a mais que em 2024 e R$ 40 bilhões a mais que em 2022. Entre os shows organizados e financiados pelo fundo estão desde astros internacionais, como Paul McCartney e Roger Waters, até a brasileira Xuxa, que se apresenta este ano.
A Flowinvest lançou neste início de ano outro FIDC para financiar produtores regionais menores, artistas e até times de futebol e pretende passar a atuar também com crowdfunding. “Vamos começar no meio do ano também a oferecer financiamento crowdfunding para projetos menores e mais especializados, usando nossa experiência no setor para financiar artistas e jogadores de futebol iniciantes”, diz Wolf.
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