Lula versus Flávio Bolsonaro: quais ações devem ganhar em cada cenário das eleições?

As eleições presidenciais de outubro se transformaram no principal tema do mercado brasileiro. Com pesquisas apontando uma disputa apertada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), investidores têm sido obrigados a responder a uma pergunta cada vez mais importante: quais ações comprar para cada resultado eleitoral?

A resposta começa principalmente pelas perspectivas de ajuste e, posteriormente, trajetória fiscal.

Na visão do Citi, independentemente do resultado eleitoral, a credibilidade da consolidação fiscal e a capacidade do governo de garantir apoio no Congresso devem permanecer como os principais determinantes do desempenho das ações. Já o Morgan Stanley considera que a eleição é essencialmente uma história de divergência fiscal, com potencial para definir o rumo dos juros, do câmbio e da Bolsa pelos próximos anos.

Na leitura predominante do mercado, um eventual governo de Flávio Bolsonaro teria maior potencial de acelerar um processo de consolidação fiscal, permitindo queda mais intensa da Selic e redução dos prêmios de risco. Já uma vitória de Lula seria vista como um cenário de continuidade das políticas atuais, com juros elevados por mais tempo e maior cautela dos investidores.

O cenário Lula: exportadoras e ações defensivas

Nas recomendações do Citi, a reeleição de Lula favorece empresas capazes de atravessar um ambiente de crescimento mais lento, juros elevados e possível pressão sobre o câmbio.

O banco monta sua carteira priorizando ações de perfil defensivo, com balanços sólidos, poder de precificação e baixa dependência da atividade doméstica. Além disso, também vê oportunidades em empresas expostas a programas governamentais específicos, como o MCMV (Minha Casa Minha Vida).

Na lista das 10 principais ações estão: Cury (CURY3), Embraer (EMBJ3), WEG (WEGE3), Axia Energia (AXIA3), Copel (CPLE3), BradSaúde (SAUD3), Ultrapar (UGPA3), Gerdau (GGBR4), BTG Pactual (BPAC11) e Caixa Seguridade (CXSE3).

A mesma lógica aparece nas recomendações da Nomos, que prefere exportadoras que tendem a ser beneficiadas por um dólar mais forte e negócios menos sensíveis ao ciclo econômico. Entre suas escolhas aparecem Suzano (SUZB3), WEG, BB Seguridade (BBSE3), Caixa Seguridade (CXSE3) e TIM (TIMS3).

O Morgan Stanley chega a conclusão semelhante ao destacar uma cesta de empresas que se beneficiariam de um ambiente de juros estruturalmente mais altos. Entre elas estão Suzano (SUZB3), Vale (VALE3), Embraer (EMBJ3), Gerdau (GGBR4), JBS (BDR: JBSS32), Itaú Unibanco (ITUB4), Porto Seguro (PSSA3), Telefônica Brasil (VIVT3) e TIM (TIMS3).

Isso porque exportadoras possuem receitas dolarizadas e funcionam como proteção em momentos de enfraquecimento do real. Já bancos tradicionais, seguradoras e telecomunicações tendem a sofrer menos com uma desaceleração econômica.

O cenário Flávio Bolsonaro: aposta no mercado doméstico

Enquanto o mercado associa Lula à continuidade, a tese ligada a Flávio Bolsonaro passa por uma possível redução dos prêmios de risco da economia.

O principal tema de investimento passa a ser duration, com companhias cuja valorização depende fortemente da queda dos juros e da retomada da atividade doméstica.

O Citi aposta em modelos de negócios cíclicos e empresas com alavancagem seletiva, destacando Cyrela (CYRE3), Multiplan (MULT3), Sabesp (SBSP3), Assaí (ASAI3), C&A (CEAB3), Hapvida (HAPV3), Petrobras (PETR4), Vale (VALE3), XP (BDR: XPBR31) e B3 (B3SA3) como principais beneficiárias.

A Nomos segue direção semelhante, apostando em Petrobras (PETR4), Banco do Brasil (BBAS3), Axia Energia (AXIA3), BTG Pactual (BPAC11) e Cyrela (CYRE3).

O raciocínio é que juros menores reduzem o custo de capital, estimulam crédito, consumo e investimento. Nessas circunstâncias, empresas ligadas ao mercado doméstico tendem a registrar expansão de múltiplos e crescimento mais acelerado dos resultados.

O Morgan Stanley afirma que, em uma hipótese de mudança de política econômica e ajuste fiscal, os principais vencedores seriam serviços financeiros como XP, B3, BTG Pactual e Nubank (BDR: ROXO34), além de empresas ligadas ao investimento e ao ciclo doméstico.

Setor financeiro nos dos dois lados

Em comum nas análises, está a visão do setor financeiro como uma boa aposta nos dois cenários, sendo a principal diferença os nomes.

Em um cenário de continuidade, o Morgan Stanley prefere instituições voltadas à proteção, como Itaú (ITUB4), BTG (BPAC11) e Porto Seguro (PSSA3).

Já em uma mudança de política econômica, o banco migra para ativos com maior sensibilidade aos juros, como XP, B3, Nubank e Banco do Brasil (BBAS3).

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O Citi adota leitura semelhante ao incluir BTG em ambas as carteiras, refletindo a capacidade do banco de capturar oportunidades tanto em um ambiente de juros elevados quanto em cenários de maior atividade de mercado.

Estratégia dupla

A visão da Kinea vai na mesma direção dos bancos globais: a eleição é vista como um divisor de águas porque afeta diretamente a trajetória dos juros reais e o prêmio de risco do país.

Diante da incerteza eleitoral, a Kinea recomenda uma estratégia dividida em duas frentes. A primeira prioriza empresas capazes de gerar caixa e crescer independentemente do ciclo econômico. A segunda busca capturar oportunidades em setores mais penalizados pelos juros elevados, mas que poderiam se beneficiar significativamente caso haja melhora das expectativas fiscais.

Entre os setores defensivos, a casa destaca utilities e construção de baixa renda ligada ao programa Minha Casa, Minha Vida. Segundo a gestora, concessões, ativos regulados e empresas expostas ao programa habitacional oferecem combinação de crescimento e geração de caixa relativamente resiliente mesmo em um ambiente desafiador.

Já entre as apostas mais sensíveis a uma eventual queda dos juros, a Kinea cita bancos, varejo e companhias industriais. Para a gestora, esses segmentos acumulam anos de compressão de resultados provocada pelo elevado custo de capital e poderiam apresentar forte recuperação caso o país entre em um ciclo mais favorável de crédito e investimento.

A análise também destaca a Embraer (EMBJ3) como uma exceção dentro da Bolsa brasileira. Segundo a casa, a tese da fabricante de aeronaves depende mais de tendências globais da indústria aeronáutica do que do ciclo doméstico de juros, o que lhe confere características diferenciadas em relação ao restante do mercado.

Ainda que haja diferenças nas listas, as casas ressaltam que o grande fator para os próximos 4 anos é a percepção do mercado sobre a capacidade do próximo governo de estabilizar a trajetória fiscal e reduzir os juros reais ao longo dos próximos anos.

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