Boa gestão, caixa e retorno: gestores traçam mapa da mina do crédito privado em 2026

O cenário para a economia brasileira nos próximos meses é desafiador, mas há boas chances de ganhos em investimentos em crédito privado, seja em debêntures de empresas, seja em fundos de recebíveis, dizem executivos de grandes gestoras.

“Vemos muitas oportunidades em empresas que não têm rating ou têm rating menor, mas têm boa gestão e bom caixa e que permitem montar estruturas mais seguras”, afirma Marcelo Urbano, gestor da XP Asset, durante participação no painel “Investindo em Crédito no Brasil: em Busca do Alpha”, na Expert XP 2026.

“Às vezes é melhor o papel de uma empresa boa em um setor não tão bom do que o de uma empresa mal gerida em um setor bom”, diz.

Urbano cita ainda oportunidades em fundos de recebíveis, os FIDCs, que são instrumentos flexíveis e com boa governança, “que podem trabalhar ideias interessantes com estruturas e processos que fazem sentido”.

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Seletividade

O momento atual é de seletividade e cautela no crédito privado, defende Jean Pierre Cote Gil, gestor da Vinland Crédito. Cautela pelo ambiente macro mais difícil, com a economia sob os efeitos da política monetária apertada e do ciclo eleitoral; e seletividade porque há muito mais opções para investir em crédito, explica.

“Temos empresas de boa qualidade ainda pagando spreads de crédito alto e empresas de risco de crédito intermediário apanhando, mas que podem ser interessantes em determinadas estruturas”, afirma Gil.

O contexto atual, marcado por juros altos não só no Brasil, é um desafio para as empresas e exige maior cuidado dos estruturadores de investimentos em crédito, avalia Alexandre Muller, diretor de investimentos da Leto Capital.

“Para reduzir riscos, procuramos empresas que estão no balanço dos bancos e que devem migrar para o mercado de capitais”, diz, lembrando que essas empresas já passaram pelo crivo das análises das instituições financeiras.

Muller observa que o potencial de crescimento do crédito privado no Brasil é grande e que, nos Estados Unidos, para cada dólar emprestado pelos bancos para empresas, há quatro vindos do mercado de capitais.

O retorno maior também é um atrativo adicional para o crédito privado, diz Cote Gil. “O crédito oferece um retorno de 1% a 2% ao ano a mais pelo prêmio de liquidez, pelo desconhecimento da empresa pelo mercado e pelo tempo de análise — e isso se transforma em prêmio para os fundos que investem em crédito”, diz.

Muller, da Leto, diz que a gestora tem capturado ganhos adicionais em momentos de desconfiança do mercado, como quando ocorreram os casos de inadimplência da Aegea e da Cosan. “Os spreads pagos pelos papéis de outras empresas desses setores subiram e conseguimos ganhos mais altos”, diz.

Outra fonte de ganhos é a economia real, com o crédito para setores que não estão sendo assistidos pelo mercado. “Estamos abrindo uma plataforma no Nordeste para oferecer crédito para empresas menores, tentando ficar mais perto da economia real”, diz.

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Pente fino

Sobre os cuidados na hora de investir em crédito privado, Cote Gil diz que a experiência dos últimos anos foi importante para os gestores. Segundo ele, desde o caso Americanas, em 2023, houve 40 outros casos de default que atingiram as pessoas físicas, e isso ensinou os gestores a lidar melhor com esses casos, como a necessidade de organizar grupos grandes de credores para negociar com as empresas.

Mas ele diz que a prioridade do gestor deve ser evitar o risco de investir em uma empresa que possa entrar em dificuldade. “A gestão de crédito no Brasil é mais evitar problemas, porque a resolução desses casos é baixa e demorada”, diz.

Entre os cuidados, ele cita análises mais profundas das empresas antes de investir, o que inclui até a avaliação dos executivos da futura devedora no processo de aprovação dos créditos.

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Tamanho importa?

Na Leto, Muller diz que, diante das dificuldades esperadas para a economia, a preferência deve ser por empresas dominantes em seus setores, já que as empresas médias estarão mais sujeitas a dificuldades. A gestora também está olhando para securitização via FIDCs e empresas de infraestrutura regionais, além de ETFs, “que logo devem fazer parte do mundo de crédito”.

Já Urbano diz que a preferência deve ser por empresas high yield, ou que pagam juros maiores, já que as dominantes não pagam taxas tão altas. “Olhamos empresas de porte médio e que, por não estarem no mercado de capitais, pagam boas taxas para sair dos bancos”, diz. Ele olha também para crédito estruturado, ou FIDCs.

Cote Gil diz que o foco deve ser em fundos de menor risco, de grandes empresas, no topo da pirâmide, buscando mais crédito estruturado e o setor de infraestrutura, que se ampliou nos últimos anos. “Hoje infraestrutura não é só saneamento, energia e transporte: temos agronegócio e telecomunicações em pequenas cidades, que têm retorno interessante”, diz.

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